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sábado, 27 de agosto de 2011

Uma história surreal para dar auto-confiança

O casal Barkley não podia ter filhos e fez inseminação artificial. Tudo ia bem. Mas para sua surpresa, quando o bebê nasceu, descobriram um erro no laboratório. Harry, como vieram a chamá-lo, era um repolho. Muito saudável e natural. Harry teve uma infância muito triste, sempre rejeitado. Dormia numa cesta de frutas, na cozinha gelada. Seus colegas implicavam o tempo todo, não tinha amigos e nem namorada. "Repolho podre! Repolho podre!", repetiam os outros garotos.

Até que um dia a turma do colégio foi fazer uma grande excursão, de navio. Harry, que sempre quis conhecer o mar, foi junto. Porém tudo continuava igual para o triste Harry, sem amigos e nem namorada, e aguentando a zoação dos colegas. "Repolho podre! Repolho podre!". Mas sobreveio uma tempestade e o navio afundou. Harry e seus colegas ficaram muitos dias à deriva. E, com o desespero, veio a fome. Então, Harry falou:

- Comam aos poucos e pelas beiradas minhas folhas enquanto no meu miolo eu armazeno a água da chuva. 

Graças a este gesto, todos sobreviveram, inclusive Harry, que no entanto, teve de ser hospitalizado. Não importa, ele agora era famoso e reconhecido em todo o mundo. "Repolho herói", dizia o The Washington Post. "Novo mito americano é um repolho", dizia o New York Times. Tudo ia bem para o agora herói Harry. E mais, seu pai em prantos pediu desculpas e disse:

- Eu estava errado, não importa que você seja um repolho, o que conta é ser o melhor repolho do mundo.

Hoje, Harry é feliz. Cresceu e é arcebispo de Tucson, Arizona.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

So Long


Tínhamos montado uma oficina, nós três. Mas, uma manhã, Floyd caiu fora. E recebemos uma carta vinda de Stockton. Dizia que o pó e o cheiro de pneu queimado faziam falta. Queria se lançar de novo nas pistas. Como tinha levado nosso Dodge, nos cedia sua parte na oficina. Pior pra você, Floyd. So long. E logo chegou a vez de Paul. Os tiras me trouxeram sua carta: ele não estava legal e não sabia por que havia se jogado com meu carro contra o muro. Fuck! Também havia 50 dólares na carta. Devia dá-los a uma puta, para que pensasse nele a noite inteira. Dei meu macacão e as chaves da oficina para Lucke, meu jovem assistente paraplégico. Um presente, disse a ele. Ele ensaiou uma risada, mas quando compreendeu que não nos veríamos mais, me olhou como cachorro espancado. Senti seus olhos me seguindo. O rio se arrastava, asqueroso e amargo.

Eu a encontrei - a puta - no final da tarde, numa zona de meretrício. Com certeza agradaria a Paul, expliquei a ela. Não estranhou, nem se pertubou.
Entreguei a grana e quis cair fora. Ela me deteve e perguntou se eu tinha uma foto de Paul. Não tinha. Então, queria que eu falasse um pouco sobre ele. Senão não saberia em quem pensar. Ficamos horas sentados em seu quarto, e eu lhe falando de Paul. Creio que a feria com isso. Então, me disse: 

- No fundo, você é como Paul e ele não se oporia se o substituísse para trepar. 50 dólares só para pensar é um pouco demais.

Ela quase chorou enquanto se desnudava e subia em cima de mim. Bom Paul, acabou. So long. Quando acordei, de manhã, ela já tinha partido. Sem dúvida, todo mundo acaba partindo, não importa quando. Não importa para que lugar. Mas, porra, para onde queriam ir todos? Além do mais queria ter dito qualquer outra coisa. Mas o quê? Saí do quarto e segui umas folhas de jornal até a estação rodoviária. Certo de que encontraria um greyhound que me levaria. O rio se arrastava, asqueroso e amargo. Mas... porra! Para onde queriam ir todos?

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Abismo de Dora

Meu lar? Minha personalidade? Meus sentimentos? Não sei... Talvez perdidos nesse abismo que existe entre o barulho externo e meu próprio silêncio. Meu nome é Dora. Nasci com uma espécie de paralisia cerebral, segundo meu médico, o que faz com que eu não consiga produzir fala. Eu sei o que você está pensando. E não, eu não sou retardada. Quero deixar bem claro que Paralisia Cerebral é uma deficiência física, e não mental. Nós, PCs, entendemos tudo tão perfeitamente quanto ou até melhor que você, seu ignorante de merda!

Bom, mas vamos deixar isso de lado. Como disse antes, meu nome é Dora. Agora estou no metrô, indo pra minha casa. Uma senhora senta do meu lado e me pergunta as horas. Eu não respondo, apenas mostro meu relógio de pulso. Me pergunta mais duas vezes, impaciente. Continuo na minha. Ela me chama de garotinha nojenta, se levanta e vai sentar em outro lugar. Ainda bem. Odeio velha boca-suja! Boca suja e ignorante. E depois, não foi culpa minha, foi o abismo. Além de desenhar, minha maior distração é observar ao meu redor. E, inevitavelmente, sempre surgem estes seres desprezíveis pelos quais sinto uma profunda repulsão: os homens. Tem três deles sentados perto de mim. É óbvio que estão falando de mulher. Um dos babacas diz:

- É isso. Você deixa a patroa em casa, que é onde ela deve ficar. Depois, quando botarem a gente pra fora do bar, ainda vai dar tempo para uma rapidinha.

Daqui dá pra sentir o cheiro de conhaque barato em seus hálitos e sinto náuseas. Porcos machistas. Valerie Solanas e Lorena Bobbitt - minhas ídolas - é que estavam certas. Tem que castrar todos e criar uma sociedade de mulheres! Foda-se o papo da reprodução da raça humana. Eu odeio a raça humana! Mas, infelizmente, tenho que conviver com ela. Mas é claro que nem todos os humanos são esses seres desprezíveis. Apenas as mulheres se salvam. Isto é, algumas delas. Uma delas é Eva, a garota com quem racho o aluguel. Ela é linda, doce e muito inteligente. Eva é aspirante a escritora, mas é muito talentosa. Eu só me sinto segura nesse mundo horrível quando estou próxima dela. O melhor de tudo é que ela já estava acostumada ao meu silêncio e era paciente com isso. Ela me faz sentir segura. Só possui um defeito: diferente de mim, ela ama os homens. Parece até que namora um cada mês. Ninguém é perfeito. Assim que chego em casa, depois de mais uma série de arquétipos repetitivos, encontro Eva lendo no sofá.

- Oi, Dora, estava te esperando. - ela me diz, com aquele sorriso no rosto que eu tanto amo - Eu preciso de um favor de você.

"Tudo o que você quiser, meu amor", eu pensava. Minha alegria logo acabou, ao ouvir o "favor".

- É o seguinte: já sei que você não pensava em sair hoje à noite, mas preciso que você fique fora por umas horas. É que finalmente consegui marcar um encontro com aquele carinha de quem te falei. Daqui a pouco, ele virá para o jantar e depois, bom, você sabe... Quando você voltar, não faça barulho, estaremos no meu quarto.

Aquilo me deixou triste, arrasada. Não me restava nada a não ser sair para beber alguma coisa. Fui prum restaurante perto de casa e pedi uma garrafa de vinho. Tentei desenhar para tentar esquecer Eva e o mundo. Geralmente isso funcionava, mas hoje foi diferente. Peguei um cigarro do meu maço, mas não tinha isqueiro.

- Fogo para a artista. - falou um magrelo metido a playboy, estendendo com a mão seu isqueiro vagabundo - O que uma garota tão linda como você faz tão sozinha? Precisa de companhia? Como você se chama?

Céus, ele não parava de falar. E eu, é claro, apenas o ignorando, muda.

- Você não fala muito. Gosto disso. - ele continuava, colocando a mão peluda no meu ombro, achando que estava me conquistando - Deixe-me ver esse desenho.

Rasguei o papael e lancei-lhe um olhar de nojo e desprezo. Ele entendeu o recado e foi embora. Me enchi daquele lugar e voltei pra casa, um pouco tonta por causa do vinho. Abro a porta e lá está a cueca do paquera da Eva jogada no chão. Cuequinha do Snoopy. Que palhaço. Fui para meu quarto e me deitei na cama, na esperança de conseguir dormir um pouco. De repente, ouço um barulho. É Eva gritando.

- Muito bem! Se é isso que voce quer, pode ir embora! - Ela berrava para o rapaz, que logo em seguida bateu a porta e se foi.

Eva vem chorando para o meu quarto e me abraça, aos prantos.

- Aquele estúpido... São todos iguais...

Me sentia mal vendo meu amor chorar, mas, ao mesmo tempo, encontrei uma brecha para consolá-la e tentar chegar perto. Deve ter sido o vinho que me fez tentar beijá-la. Eva, é claro, se afastou.

- Pára, Dora... Estou bem... Não se preocupe...

Fui rejeitada mais uma vez. Ela me pediu para ficar sozinha e voltou para o quarto dela. Aquilo me deixou ainda mais chateada. Só restava dormir e esperar uma outra chance de me aproximar de Eva. Passa-se mais ou menos uma semana e chega o aniversário de Eva. Ela está escrevendo em seu escritório, como sempre. Me aproximo silenciosamente para não chamar antenção, tampo seus olhos para fazer-lhe uma surpresa e lhe entrego um cartão de aniversário. Fico feliz ao ver que ela gostou do presente.

- Oh, Dora... - ela diz, suspirando - Se lembrou do meu aniversário. Você é adorável.

Ela me dá um abraço forte e demorado e me faz a mulher mais feliz do mundo por alguns segundos. Escrevo uma mensagem para ela num papel, a convidando para comemorar jantando fora.

- Jantar fora? Sinto muito, Dora, mas combinei com um cara para sair hoje à noite. Vamos voltar tarde.

Percebo que fui rejeitada mais uma vez e fico aborrecida. Não demora muito para meus olhos se encherem de lágrimas. Eva percebe meu sofrimento, mas não o compreende.

- Vamos, vamos, por que faz essa cara? - Ela me pergunta, nem imaginando o que se passa na minha cabeça - Agora está chorando? Quando a gente alugou o apartamento, ficou bem claro que cada uma levaria sua vida... Por que está assim agora?

Não consigo parar de chorar e vou embora do escritório. Eva fica nervosa, e, insensível, exclama:

- Então tá, vá embora se é isso o que você quer. Às vezes penso que você não bate muito bem.

Minha vontade é de desaparecer, ir embora para qualquer outro planeta. Mas como isso não é possível, vou ao mesmo restaurante da semana passada, encher a cara. Fico por lá até de noite, bebendo, fumando e pensando em Eva, é claro. Mas não só pensamentos apaixonados. É uma sensação de raiva por ter sido ignorada duas vezes. Odiava em pensar que ela estava jantando com outra pessoa. Minha vontade era de cortar fora o pinto de todos os homens que davam em cima de Eva e ficar com ela só pra mim. Sentimentos misturados com àlcool não são uma boa combinação. Pelo menos pra mim. Me sinto mal e vou pra casa. Quando abro a porta, me deparo com uma cena que não devia. Eva e seu namoradinho no sofá, nus, trepando. Eles se assustam. Eva, visivelmente bêbada, se irrita.

- Que porra você está fazendo em casa tão cedo?! Não sabe bater antes de entrar, não, merda?

Ela se descontrola e me dirige um monte de ofensas, sendo segurada pelo rapaz que, em seguida, vai embora, assustado.

- Olha só o que você fez! Conseguiu que ele fosse embora, sua muda estúpida!

Eu tento, em vão, acalmá-la. Eva não era tão doce e paciente quanto eu pensava.

- Tire a mão de cima de mim! - Ela ordena - Sua sapata maldita!

Eva me dá um tapão no rosto. Fico irritada e, num impulso, a jogo no chão. Ela bate na ponta da nossa mesinha de centro e cai desacordada. Muito sangue começa a sair de sua cabeça. Fico desesperada ao constatar que ela está morta. 

Fora, ruge o mundo, enquanto dentro de mim, como nunca, reina o silêncio.