Meu lar? Minha personalidade? Meus sentimentos? Não sei... Talvez perdidos nesse abismo que existe entre o barulho externo e meu próprio silêncio. Meu nome é Dora. Nasci com uma espécie de paralisia cerebral, segundo meu médico, o que faz com que eu não consiga produzir fala. Eu sei o que você está pensando. E não, eu não sou retardada. Quero deixar bem claro que Paralisia Cerebral é uma deficiência física, e não mental. Nós, PCs, entendemos tudo tão perfeitamente quanto ou até melhor que você, seu ignorante de merda!
Bom, mas vamos deixar isso de lado. Como disse antes, meu nome é Dora. Agora estou no metrô, indo pra minha casa. Uma senhora senta do meu lado e me pergunta as horas. Eu não respondo, apenas mostro meu relógio de pulso. Me pergunta mais duas vezes, impaciente. Continuo na minha. Ela me chama de garotinha nojenta, se levanta e vai sentar em outro lugar. Ainda bem. Odeio velha boca-suja! Boca suja e ignorante. E depois, não foi culpa minha, foi o abismo. Além de desenhar, minha maior distração é observar ao meu redor. E, inevitavelmente, sempre surgem estes seres desprezíveis pelos quais sinto uma profunda repulsão: os homens. Tem três deles sentados perto de mim. É óbvio que estão falando de mulher. Um dos babacas diz:
- É isso. Você deixa a patroa em casa, que é onde ela deve ficar. Depois, quando botarem a gente pra fora do bar, ainda vai dar tempo para uma rapidinha.
Daqui dá pra sentir o cheiro de conhaque barato em seus hálitos e sinto náuseas. Porcos machistas. Valerie Solanas e Lorena Bobbitt - minhas ídolas - é que estavam certas. Tem que castrar todos e criar uma sociedade de mulheres! Foda-se o papo da reprodução da raça humana. Eu odeio a raça humana! Mas, infelizmente, tenho que conviver com ela. Mas é claro que nem todos os humanos são esses seres desprezíveis. Apenas as mulheres se salvam. Isto é, algumas delas. Uma delas é Eva, a garota com quem racho o aluguel. Ela é linda, doce e muito inteligente. Eva é aspirante a escritora, mas é muito talentosa. Eu só me sinto segura nesse mundo horrível quando estou próxima dela. O melhor de tudo é que ela já estava acostumada ao meu silêncio e era paciente com isso. Ela me faz sentir segura. Só possui um defeito: diferente de mim, ela ama os homens. Parece até que namora um cada mês. Ninguém é perfeito. Assim que chego em casa, depois de mais uma série de arquétipos repetitivos, encontro Eva lendo no sofá.
- Oi, Dora, estava te esperando. - ela me diz, com aquele sorriso no rosto que eu tanto amo - Eu preciso de um favor de você.
"Tudo o que você quiser, meu amor", eu pensava. Minha alegria logo acabou, ao ouvir o "favor".
- É o seguinte: já sei que você não pensava em sair hoje à noite, mas preciso que você fique fora por umas horas. É que finalmente consegui marcar um encontro com aquele carinha de quem te falei. Daqui a pouco, ele virá para o jantar e depois, bom, você sabe... Quando você voltar, não faça barulho, estaremos no meu quarto.
Aquilo me deixou triste, arrasada. Não me restava nada a não ser sair para beber alguma coisa. Fui prum restaurante perto de casa e pedi uma garrafa de vinho. Tentei desenhar para tentar esquecer Eva e o mundo. Geralmente isso funcionava, mas hoje foi diferente. Peguei um cigarro do meu maço, mas não tinha isqueiro.
- Fogo para a artista. - falou um magrelo metido a playboy, estendendo com a mão seu isqueiro vagabundo - O que uma garota tão linda como você faz tão sozinha? Precisa de companhia? Como você se chama?
Céus, ele não parava de falar. E eu, é claro, apenas o ignorando, muda.
- Você não fala muito. Gosto disso. - ele continuava, colocando a mão peluda no meu ombro, achando que estava me conquistando - Deixe-me ver esse desenho.
Rasguei o papael e lancei-lhe um olhar de nojo e desprezo. Ele entendeu o recado e foi embora. Me enchi daquele lugar e voltei pra casa, um pouco tonta por causa do vinho. Abro a porta e lá está a cueca do paquera da Eva jogada no chão. Cuequinha do Snoopy. Que palhaço. Fui para meu quarto e me deitei na cama, na esperança de conseguir dormir um pouco. De repente, ouço um barulho. É Eva gritando.
- Muito bem! Se é isso que voce quer, pode ir embora! - Ela berrava para o rapaz, que logo em seguida bateu a porta e se foi.
Eva vem chorando para o meu quarto e me abraça, aos prantos.
- Aquele estúpido... São todos iguais...
Me sentia mal vendo meu amor chorar, mas, ao mesmo tempo, encontrei uma brecha para consolá-la e tentar chegar perto. Deve ter sido o vinho que me fez tentar beijá-la. Eva, é claro, se afastou.
- Pára, Dora... Estou bem... Não se preocupe...
Fui rejeitada mais uma vez. Ela me pediu para ficar sozinha e voltou para o quarto dela. Aquilo me deixou ainda mais chateada. Só restava dormir e esperar uma outra chance de me aproximar de Eva. Passa-se mais ou menos uma semana e chega o aniversário de Eva. Ela está escrevendo em seu escritório, como sempre. Me aproximo silenciosamente para não chamar antenção, tampo seus olhos para fazer-lhe uma surpresa e lhe entrego um cartão de aniversário. Fico feliz ao ver que ela gostou do presente.
- Oh, Dora... - ela diz, suspirando - Se lembrou do meu aniversário. Você é adorável.
Ela me dá um abraço forte e demorado e me faz a mulher mais feliz do mundo por alguns segundos. Escrevo uma mensagem para ela num papel, a convidando para comemorar jantando fora.
- Jantar fora? Sinto muito, Dora, mas combinei com um cara para sair hoje à noite. Vamos voltar tarde.
Percebo que fui rejeitada mais uma vez e fico aborrecida. Não demora muito para meus olhos se encherem de lágrimas. Eva percebe meu sofrimento, mas não o compreende.
- Vamos, vamos, por que faz essa cara? - Ela me pergunta, nem imaginando o que se passa na minha cabeça - Agora está chorando? Quando a gente alugou o apartamento, ficou bem claro que cada uma levaria sua vida... Por que está assim agora?
Não consigo parar de chorar e vou embora do escritório. Eva fica nervosa, e, insensível, exclama:
- Então tá, vá embora se é isso o que você quer. Às vezes penso que você não bate muito bem.
Minha vontade é de desaparecer, ir embora para qualquer outro planeta. Mas como isso não é possível, vou ao mesmo restaurante da semana passada, encher a cara. Fico por lá até de noite, bebendo, fumando e pensando em Eva, é claro. Mas não só pensamentos apaixonados. É uma sensação de raiva por ter sido ignorada duas vezes. Odiava em pensar que ela estava jantando com outra pessoa. Minha vontade era de cortar fora o pinto de todos os homens que davam em cima de Eva e ficar com ela só pra mim. Sentimentos misturados com àlcool não são uma boa combinação. Pelo menos pra mim. Me sinto mal e vou pra casa. Quando abro a porta, me deparo com uma cena que não devia. Eva e seu namoradinho no sofá, nus, trepando. Eles se assustam. Eva, visivelmente bêbada, se irrita.
- Que porra você está fazendo em casa tão cedo?! Não sabe bater antes de entrar, não, merda?
Ela se descontrola e me dirige um monte de ofensas, sendo segurada pelo rapaz que, em seguida, vai embora, assustado.
- Olha só o que você fez! Conseguiu que ele fosse embora, sua muda estúpida!
Eu tento, em vão, acalmá-la. Eva não era tão doce e paciente quanto eu pensava.
- Tire a mão de cima de mim! - Ela ordena - Sua sapata maldita!
Eva me dá um tapão no rosto. Fico irritada e, num impulso, a jogo no chão. Ela bate na ponta da nossa mesinha de centro e cai desacordada. Muito sangue começa a sair de sua cabeça. Fico desesperada ao constatar que ela está morta.
Fora, ruge o mundo, enquanto dentro de mim, como nunca, reina o silêncio.
Fora, ruge o mundo, enquanto dentro de mim, como nunca, reina o silêncio.

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