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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

São Paulo

Era assim e eu me divertia. Era assim que eu gostava da noite paulistana. Música a valer e Os Lunáticos com as bocas fechadas sem cantar. Parou de chover e eu gosto disso. Mas agora meu Birello está úmido e minha jaqueta está úmida e isso me deixa incomodado. Pra piorar, estou com dor de cabeça. Preciso voltar pra casa e dormir bem, para acordar disposto para viajar amanhã. Vou caminhando pela rua, sem me importar com a possiblidade de ser atropelado. Foi justamente isso que aconteceu. Um carro em alta velocidade. Uma mulher desatenta ao volante. E outra no banco do carona, quase vomitando. A motorista do veículo estava assustada e bem chapada, parecia que queria chorar. A outra vomitou na rua e veio rindo, como se estivesse perdendo a parte da festa naquele asfalto molhado. Uma poça de sangue e saliva se formava na minha boca. Mas o que me incomoda mais é a música que sai do rádio do carro. "Domino Dancing". Odeio Pet Shop Boys. Não suporto. Me levanto e vou até o carro.

- PORRA! - esbravejo, chutando a lataria do veículo - EU ODEIO ESSA MÚSICA!

As garotas não fazem nada. Paradas, observam eu descarregar minha fúria. Que motivo elas teriam para se zangarem. Foram as duas que me atropelaram. De qualquer modo, me desculpo pelo que fiz. Cynthia está melhor quando se apresenta. Sua amiga, Lisa, continua viajando. Decidimos deixar o carro alí e ir a pé até ao apartamento delas, duas quadras acima. Seguro Lisa para que não desabe, enquanto ela não para de falar. É irritante. Levo um beijo dela e não fecho os olhos. Fico olhando para as mãos de Cynthia enquanto toca a campanhia várias vezes. Me dou conta de que, se não fosse a frente fria repentina, o aeroporto estaria aberto... Afinal, o porteiro não estava dormindo, apesar da demora em abir o portão. Troco um olhar com Cynthia, enquanto o porteiro estremecia na guarita. Atrás do porteiro, um pilar. Atrás do pilar, uma menina. Ela não devia ter mais de 12 anos. E olhava assustada para nós três. Ela não é a única. Enquanto fecha a porta do elevador, o porteiro me encara com medo e ódio... Mas eu não sei nada a respeito dele, e nem me interessa saber.

Enfim chegamos ao apartamente, eu, Cynthia e Lisa. Me oferecem uma bebida. Whisky. Aceito, apesar da dor de cabeça. Viro o copo, e vejo Lisa se despindo. Não era minha intenção fazer sexo com as duas. Mas diante das oportunidades, vocês já devem imaginar o que aconteceu. Foi incrível. Apesar dos infortúnios, foi uma bela noite. Assim que acabamos, Lisa apaga na cama e eu permaneço acordado, fitando o teto, me sentindo o maior dos homens, como se não fosse uma coisa comum. Cynthia diz que sempre sente uma irresistível vontade de fumar após o sexo e vai pegar um cigarro na sala. Encontra o maço, mas não o isqueiro, e me pergunta se eu tenho fogo, revirando o bolso de minha jaqueta. Ela encontra uma arma e fica um pouco assustada. É melhor lhe contar o porque daquela arma. Me ocorre um "flash-back" como nos filmes.

Eu tinha 11 anos e a classe toda estava rezando para a aula acabar logo... Menos o N., meu melhor amigo, que estava apaixonado pela professora. Eles entraram, pegaram nossos relógios e carteiras e estupraram a professora, obrigando todo mundo a olhar... Mas a campanhia tocou e um deles esqueceu o revólver na lousa. Ninguém soube disso... Eu guardei a arma na caixa d'agua do vestiário masculino. Eu tinha 11 anos... Achava que o N. iria usá-lo um dia, pela professora... Quando resolvi ver se ainda estava lá, encontrei o revólver, mas não o N. 

Está clarenado lá fora e o aeroporto deve reabrir hoje. Vou mandar o revólver de Los Angeles para o N., airmail. Me despeço de Cynthia e de Lisa com um beijo no rosto de cada uma e vou embora do apartamento. O porteiro da manhã é quase o mesmo, apenas com uns 40 anos a mais... Sinto uma pancada na nuca, e, quando acordo, vejo o porteiro da noite sem seu uniforme. Ele me ameaça com uma faca. Levo algum tempo para entender o motivo de toda aquela agitação matinal...

- Seu filho-da-puta - grita o porteiro - Era para ela ser minha! Minha! Vou te matar!

Algo me incomoda na minha jaqueta e eu sei o que é... Aponto firmemente para o porteiro, que avança com a faca, e atiro...

Clic. BAM!!

Pronto. Acabou. 

Quero apenas que o aeroporto abra hoje. Quero apenas pegar esse voo que planejei há meses. Quero apenas assustá-lo um pouco. Chego ao aeroporto e vou até o check-in. Nessa hora, o auto-falante anuncia meu destino... Me dirigo portão para embarcar e entrego meu visto e meu passaporte. Adeus, São Paulo. Quero que saiba que eu gosto muito de você. Sim, gosto de São Paulo. Gosto porque nunca sei se vou voltar vivo pra casa.

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