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quarta-feira, 20 de abril de 2011

O Anão Apaixonado

Ele não foi feito para mim. Ele não é do meu tamanho, ele é muito grande pra mim. Não estou falando do meu terno, e sim do mundo. Eu sou pouca coisa. Pode se aproximar. Sou pouca coisa. Sou pequeno como uma criança. Mas não sou uma criança. E isto é o problema.

Por onde começar? Preciso seguir o fio de minhas lembranças. Um fio vermelho de sangue que passa por São Paulo. São Paulo, Ana. O ônibus. Seguindo este fio, volto ao drama. Todas as sextas-feiras, à mesma hora, ela chegava de ônibus. E eu, sempre pontual, a esperava. Todas as sextas-feiras, era a mesma tortura. Eu era louco por ela... Eu conhecia todos os seus passos, todos os seus costumes. Do ponto de ônibus até o supermercado. As compras da semana. Para mim, uma espera longa demais... E, de novo, o ônibus... E até essa casa de campo onde ela vivia sozinha... De sexta-feira em sexta-feira, eu a seguia. Eu vagueava em volta da casa como um lobo esfomeado. Esfomeado, porém indeciso. As mulheres me pertubaram a vida toda. Eu sentia por elas um sentimento de atração e, ao mesmo tempo, de horror. Os dois ao mesmo tempo. Nunca um sem o outro. Mas de uma vez, eu pensei: próxima sexta, sem falta. E no tal dia, nada! A mesma perseguição estéril. Mas esta obsessão não podia durar a vida toda. Não, isto era impossível!  

E chegou a sexta-feira fatal, tão temida e tão desejada. Será que foi o calor da noite quem me levou a me aproximar um pouco mais da casa? Eu me lembro da minha surpresa ao ver a porta entreaberta. Mas minha audácia não teria chegado tão longe, se eu não tivesse ouvido...

- Pode entrar! Pode entrar!

Não, não era um sonho. Não era minha mente torturada que estava brincando comigo. Era a voz dela que me convidava para entrar... Mas entrando, não vi ninguém... Nessa vida, o mais difícil é o primeiro passo. Ao primeiro passo segue o segundo. A uma porta segue a outra... Ela estava no chuveiro. Não era verdade? Sua voz ressoava ainda nos meus ouvidos. "Pode entrar". "Pode entrar". Não era um sonho. Ela tinha falado duas vezes..

Continua...

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