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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Cristina

Nunca me dei muito bem com o meu pai... Dá para ver na cara. Nossas relações escureceram mais desde que, numa noite, minha mãe fugiu de casa, cansadas das surras que recebia. Mas ao contrário da minha mãe, eu não tinha medo. Somente ódio.

- Que esta seja a última vez que eu fico sabendo que você sai com esse marginal! – Berrava meu pai.
- Não é marginal! – lhe respondi - Muitos ex-presidiários estão mais limpos que os teus companheiros, que distribuem pauladas sem escrúpulos e ficam loucos com o bagulho que conseguem apreender!
- Cala a boca, desgraçada! Você devia estar com a vaca da sua mãe!

Conheci Márcio no dia em que fiquei bêbada pela primeira vez. Foi o dia em que meu pai me deu a primeira grande surra... Casualidades da vida. Desde então a minha existência gira em volta dele e do meu insuportável pai. Dois pólos que se odeiam reciprocamente. No passado, ele foi em cana por assalto a uma farmácia. Ele só queria uns opiáceos para sua mãe, que era morfinômana e sofria a sua primeira crise de abstinência. Desde que saiu da cadeia e a gente se conheceu, eu sou a única que lhe resta; e desde que eu tenha consciência do bastardo que tenho por pai, ele é a única pessoa pela qual sinto verdadeiro carinho.

Eu e Márcio sempre íamos ao parque - nosso lugar preferido -, onde ele me contava histórias bizarras sobre o cotidiano da prisão.

- O quinto pavilhão é dos calouros, pivetes e travestis. A primeira vez que saí ao pátio com o “Caolho”. Sempre me dizia que não se deve brincar com grana, porque se você não paga, te custa um olho da cara... A ele lhe custou o direito. Ele me ajudou a conseguir um trabalho lá dentro. Assim, obtive alguns privilégios, como umas cervas a mais, mais visitas ou mais mobilidade pela prisão... Era um cara legal... Parece piada, mais foi morto pelos enfermeiros da prisão ao tentar tirar-lhe um dente.
- Esquece... – eu lhe disse ao pé do ouvido enquanto subia em cima dele – Tudo isso já passou. Vamos pra casa. O meu pai só chega na hora da janta.

Quando meu velho não está em casa... Ela vira um verdadeiro paraíso. Porém, chega a noite... E chega o monstro...

- O jantar, menina!! – berra o maldito.
- Já vai!
- Hoje pegamos quatro pentelhos entrando sem pagar no metrô... São todos um bando de marginais.
- Vai ver não tinham direito – Eu disse, defendendo os “pentelhos”.
- Mas pra ficarem na rua bebendo cerveja eles tem.
- Nessa idade se tem problemas demais pra ficar em casa assistindo “Vila Sésamo”. Além disso, os transportes públicos deveriam ser gratuitos.
- Agora parece que tenho uma porca comunista! Vai pro teu quarto agora, antes que eu lhe arrebente os dentes!

Todo dia, qualquer conversa gerava uma tormenta. E depois da tempestade... Os dias foram passando e comecei a sentir enjôos. Aquilo começava a cheirar mal... E a coisa estava clara! Fazia tempo que meu pai não me molestava muito, coisa rara dele...

- Que bosta de comida! Como cozinheira, você é uma ótima prostituta! Ah! Estava me esquecendo, hoje não virei dormir, tenho que patrulhar a noite toda. Até às nove!

Ficava ainda mais enjoada quando via aquele sorriso cínico no rosto barbudo. Logo que ele saiu, fui pro banheiro vomitar, peguei o telefone e liguei para o Márcio.

- Tá bom... Vem jantar aqui em casa... Ele vai estar fora a noite toda... Além disso, preciso falar com você... Não, é melhor não falar pelo telefone... Por favor, venha pra cá!

Mas eu não sabia que era apenas um truque do meu pai, que desconfiava que eu me encontraria com Márcio.

- O que é aquilo tão importante que você tinha pra falar? – perguntou Márcio.
- Ah... Bom, não tem pressa, a noite é longa. Que tal irmos pro quarto?

Subimos pro quarto e fizemos amor. Mal sabíamos que meu pai havia chegado em casa e estava subindo.

Continua. . .

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