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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Fim de Temporada


Ao amanhecer, sobre as areias úmidas, ainda vagueiam alguns noctâmbulos embriagados que tentam esquecer uma noite de má sorte no cassino da praia. É naqueles momentos que Eduardo desperta. O céu é mais uma vez desesperadamente azul, as nuvens dos confins do Atlântico se fazem esperar. Eduardo não abrirá o  "Neptune Place". Ninguém mais vem alugar suas esteiras de praia, seus pedalinhos, seus guarda-sóis. O objeto de suas preocupações é uma jovem bananeira que ele plantou atrás da janela sudoeste de onde pode observar seu crescimento. Assim que aparece um novo broto, ele faz questão de noticiá-lo e vai à casa de Zeca, seu vizinho mais próximo, atravessando o bairro abandonado. 

Defronte ao número trinta e oito, ele relembra as "noitadas de canastra" que organizava com seus amigos argentinos e que se prolongavam até altas horas da noite. Era divertido. Riam, bebiam. Sobre a praia, Eduardo examina os restos do verão: objetos esquecidos pelos turistas, embalagens, latas, garrafas de plástico, marcas na areia. Um carro imóvel em frente ao mar com os vidros embaçados. Os funcionários da administração regional se perdem nestas zonas esquecidas para se aproveitar de jovens telefonistas cheias de futuro. Eduardo pensa que será preciso fazer alguma coisa enquanto espera o retorno de Vera.

Zeca desprendeu-se dos braços de sua patroa para receber o visitante. Zeca sem dúvida vai passar o inverno no abrigo com ela, depois se verá... Eles trocam algumas palavras enquanto ela serve o licor de anis. Eduardo pediu emprestado a seu vizinho alguns prospectos turísticos: "Esta encantadora praia dá a todos a certeza de férias felizes, animadas pela vida intensa que lá se desenrola, em face ao mar que reflete em suas ondas o esplendor do Sol e a serenidade azulada do ar." Esta noite ele fechará os olhos enquanto espera as tempestades e o retorno de Vera.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Amor Cego Amor


Eu conheço uma menina linda. Tem uma tara por coisas feias. Mas, curiosamente, não se interessava por mim... Aqui na rua havia um cara feio. Feio de doer! Eles se apaixonaram. Estavam juntos pra valer. Mas um dia tudo mudou. Ela começou a vê-lo bonito demais e o abandonou. Ele não gostou e, angustiado, jogou-se do terceiro andar do prédio onde morava. Ela, vendo-o na calçada, grudado, sentiu que nele havia algo diferente. Sorte dela ele ainda estar vivo. Azar o meu. Eu é quem ia consolá-la.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

São Paulo

Era assim e eu me divertia. Era assim que eu gostava da noite paulistana. Música a valer e Os Lunáticos com as bocas fechadas sem cantar. Parou de chover e eu gosto disso. Mas agora meu Birello está úmido e minha jaqueta está úmida e isso me deixa incomodado. Pra piorar, estou com dor de cabeça. Preciso voltar pra casa e dormir bem, para acordar disposto para viajar amanhã. Vou caminhando pela rua, sem me importar com a possiblidade de ser atropelado. Foi justamente isso que aconteceu. Um carro em alta velocidade. Uma mulher desatenta ao volante. E outra no banco do carona, quase vomitando. A motorista do veículo estava assustada e bem chapada, parecia que queria chorar. A outra vomitou na rua e veio rindo, como se estivesse perdendo a parte da festa naquele asfalto molhado. Uma poça de sangue e saliva se formava na minha boca. Mas o que me incomoda mais é a música que sai do rádio do carro. "Domino Dancing". Odeio Pet Shop Boys. Não suporto. Me levanto e vou até o carro.

- PORRA! - esbravejo, chutando a lataria do veículo - EU ODEIO ESSA MÚSICA!

As garotas não fazem nada. Paradas, observam eu descarregar minha fúria. Que motivo elas teriam para se zangarem. Foram as duas que me atropelaram. De qualquer modo, me desculpo pelo que fiz. Cynthia está melhor quando se apresenta. Sua amiga, Lisa, continua viajando. Decidimos deixar o carro alí e ir a pé até ao apartamento delas, duas quadras acima. Seguro Lisa para que não desabe, enquanto ela não para de falar. É irritante. Levo um beijo dela e não fecho os olhos. Fico olhando para as mãos de Cynthia enquanto toca a campanhia várias vezes. Me dou conta de que, se não fosse a frente fria repentina, o aeroporto estaria aberto... Afinal, o porteiro não estava dormindo, apesar da demora em abir o portão. Troco um olhar com Cynthia, enquanto o porteiro estremecia na guarita. Atrás do porteiro, um pilar. Atrás do pilar, uma menina. Ela não devia ter mais de 12 anos. E olhava assustada para nós três. Ela não é a única. Enquanto fecha a porta do elevador, o porteiro me encara com medo e ódio... Mas eu não sei nada a respeito dele, e nem me interessa saber.

Enfim chegamos ao apartamente, eu, Cynthia e Lisa. Me oferecem uma bebida. Whisky. Aceito, apesar da dor de cabeça. Viro o copo, e vejo Lisa se despindo. Não era minha intenção fazer sexo com as duas. Mas diante das oportunidades, vocês já devem imaginar o que aconteceu. Foi incrível. Apesar dos infortúnios, foi uma bela noite. Assim que acabamos, Lisa apaga na cama e eu permaneço acordado, fitando o teto, me sentindo o maior dos homens, como se não fosse uma coisa comum. Cynthia diz que sempre sente uma irresistível vontade de fumar após o sexo e vai pegar um cigarro na sala. Encontra o maço, mas não o isqueiro, e me pergunta se eu tenho fogo, revirando o bolso de minha jaqueta. Ela encontra uma arma e fica um pouco assustada. É melhor lhe contar o porque daquela arma. Me ocorre um "flash-back" como nos filmes.

Eu tinha 11 anos e a classe toda estava rezando para a aula acabar logo... Menos o N., meu melhor amigo, que estava apaixonado pela professora. Eles entraram, pegaram nossos relógios e carteiras e estupraram a professora, obrigando todo mundo a olhar... Mas a campanhia tocou e um deles esqueceu o revólver na lousa. Ninguém soube disso... Eu guardei a arma na caixa d'agua do vestiário masculino. Eu tinha 11 anos... Achava que o N. iria usá-lo um dia, pela professora... Quando resolvi ver se ainda estava lá, encontrei o revólver, mas não o N. 

Está clarenado lá fora e o aeroporto deve reabrir hoje. Vou mandar o revólver de Los Angeles para o N., airmail. Me despeço de Cynthia e de Lisa com um beijo no rosto de cada uma e vou embora do apartamento. O porteiro da manhã é quase o mesmo, apenas com uns 40 anos a mais... Sinto uma pancada na nuca, e, quando acordo, vejo o porteiro da noite sem seu uniforme. Ele me ameaça com uma faca. Levo algum tempo para entender o motivo de toda aquela agitação matinal...

- Seu filho-da-puta - grita o porteiro - Era para ela ser minha! Minha! Vou te matar!

Algo me incomoda na minha jaqueta e eu sei o que é... Aponto firmemente para o porteiro, que avança com a faca, e atiro...

Clic. BAM!!

Pronto. Acabou. 

Quero apenas que o aeroporto abra hoje. Quero apenas pegar esse voo que planejei há meses. Quero apenas assustá-lo um pouco. Chego ao aeroporto e vou até o check-in. Nessa hora, o auto-falante anuncia meu destino... Me dirigo portão para embarcar e entrego meu visto e meu passaporte. Adeus, São Paulo. Quero que saiba que eu gosto muito de você. Sim, gosto de São Paulo. Gosto porque nunca sei se vou voltar vivo pra casa.

domingo, 11 de setembro de 2011

Teseu & Fedra


Hipólito, filho do segundo casamento de Teseu, chega em casa, depois de mais um dia de farra. Fedra, terceira mulher de Teseu, o aguarda, ansiosa. Fedra tenta discretamente seduzi-lo, despindo-se aos poucos. Hipólito recua, horrorizado. Ele jamais trairia o pai! Fedra se desespera e, sentindo-se humilhada, jura vingança. Na mesma hora sobe para seu quarto e se enforca no batente da porta. Hipólito ouve o barulho de cadeira caindo, mas acha que é apenas a madrasta quebrando algo e nem se importa, feliz de ter resistido bravamente à tentação. 

Teseu chega em casa e cumprimenta Hipólito a sua maneira de sempre: gritando com o filho por ter voltado tarde e por ter espalhado garrafas vazias de cerveja pela sala. Logo em seguida sobe para o quarto, onde encontra Fedra morta, com uma carta na qual acusa Hipólito de a ter violentado. Ele chora desesperadamente. A dor de Teseu não tem limites! Não conseguindo sujar as mãos com o sangue do próprio filho, Teseu expulsa Hipólito de casa, rogando a Netuno que o castigue. Teseu bebe todo o vinho da casa, enterra a Fedra no jardim e azucrina os vizinhos o dia e a noite inteira com sua interpretação de "As Time Goes By", de Herman Hupfeld.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Killer! - Lado B


Transtornado pela matança dos meus queridos animais, corri para o telefone. Mas a coisa não acabara. Não havia linha, nem sequer a que comunicava com meu serviço de segurança. Estava só... Havia uma porta aberta... E do outro lado estava a noite... E a liberdade. Enquanto cambaleava ouvi meu nome. Era Bill, um de meus guarda-costas. Parecia estar falando com alguém oculto nas sombras. De repente, ante meus olhos horrorizados, mãos com luvas brancas enfiaram a broca de uma furadeira nos olhos de Bill. Ele desfaleceu gritando e o sangue espirrou na minha camisa, assim como pedaços de seu cérebro e crânio. Muito, muito asqueroso. Comecei a correr para minha "caixa-forte". Todas as estrelas de Hollywood tem uma... É uma espécie de grande armário de aço blindado, provido de um ventilador e de uma linha telefônica subterrânea. Uma vez em seu interior, estaria tão tranquilo como no cofre de um banco. Mas, primeiro tinha que chegar... Antes que o louco assassino que me perseguia em minha própria casa... Não conseguia nem respirar. Devia ter mantido fechada a porta de aço... Mas não o fiz. Havia algo lá dentro, na escuridão, comigo. Acendi a luz e quase desmaiei. O assassino estava na minha frente, com um maçarico na mão. Tirou a máscara de plástico sem pressa... E me encontrei frente a frente com meu próprio rosto. 

- Deus meu! - gritei - Sou eu!

Ele hesitou e eu tratei de escapar. Mas levantou o maçarico... E, logo, meus cabelos se incendiaram. Eu só tinha um objetivo... Apagar as chamas que iam arruinar meus cabelos. Corri em direção à piscina. Ouvi seus passos me perseguindo... Ele queria terminar seu trabalho! Enquanto ele me procurava, tateando no escuro, tropeçou e caiu na piscina. Eu tinha esquecido que ela estava vazia. Apaguei o fogo com as mãos e, tentado pela curiosidade, acendi as luzes e desci na piscina. Ainda respirava. Desabotoi-lhe a camisa. Seios femininos! Era Billie Joan.

- Eu seria um Michael Rockson melhor. - ela dizia - Para começar, danço melhor.

Era inútil discutir... Estava morta... É isto que detesto nas mulheres modernas. Esta mania de competir.

Killer!


Olá... Meu nome é Michael... Michael Rockson. Com certeza você já ouviu falar de mim. Sou famoso no mundo inteiro. A histórias que vou-lhe contar é confidencial. Se vou contar, é porque quero que você saiba toda a verdade sobre mim.

Vivo aqui, nesta mansão no alto de uma colina que domina Los Angeles. Hoje ela está a venda, mas foi aqui que vivi com meu cervo, minhas lhamas e meu cachorro, Totó. Por que tantos animais? Porque o amor destas doces criaturas é, para mim, muito mais agradável do que as exigências das pessoas. Tentei criar em minha casa um mundo de contos de fadas... E, para protegê-la do mundo exterior, gastei uma fortuna na construção de um muro. Mas nem sempre se pode fugir do mundo exterior... De vez em quando se é obrigado se é obrigado a abrir as portas para estranhos... Por exemplo, quando organizei uma festa para celebrar meu video-clip "Killer", toda a turma de Hollywood veio bisbilhotar e encher a pança. Logo estavam zombando do ponche (fiel às minhas crenças religiosas, nunca sirvo nem drogas, nem álcool na minha casa). Ao final da festa, estava farto. Ordenei a Bill e Stan, meus guarda-costas, que fizessem com que todo mundo fosse embora.

- Missão cumprida, chefe. - disse-me Stan - Tudo em ordem.

Mandei fechar toda a mansão, mas a noite ainda me reservava uma surpresa. Alguém me esperava em meu quarto... Era Billie Joan, uma das bailarinas de "Killer", e estava nua.

- Escuta, Billie Joan, vista-se e amanhã conversaremos, está bem?

Era muito bonita, mas havia algo de ameaçador em sua obstinação de não deixar minha cama.

- Mas chega disto, vá embora! - insisti - Não me obrigue a chamar os guardas!

Por fim acabou se vestindo, fulminando-me com os olhos. Pode ser que eu seja um pouco antiquado, mas se alguém for compartilhar meu leito, não será sem que eu convide. Já vestida, ela saiu batendo a porta e disparando todas as sirenes do alarme... Sem uma palavra. Me acalmei vendo meu vídeo e brincando com minha coleção de bonecas de porcelana. Às vezes, tenho a impressão de que elas são minhas únicas amigas de verdade, além de minhas mascotes. Mas, naquela noite, não estava me sentindo bem. Parecia ouvir um estranho zumbido elétrico vindo de algum lugar da casa. E eu estava sozinho. Será que alguém havia deixado a máquina de lavar louça funcionando na cozinha, ou simplesmente era eu ficando paranóico? Fui ver. 

Meu coração batia como um sintetizador desorientado quando abri a porta da  sala de jogos. Acendi a luz... E quase desmaiei de horror. Tudo estava cheio de sangue e pedaços de ossos e cartilagens. Eram as lhamas... Esquartejadas com uma serra elétrica. Logo, vi o que restava de meu cachorro, Totó, suspenso por uma corda... E foi então que perdi a cabeça!

Continua...

sábado, 27 de agosto de 2011

Uma história surreal para dar auto-confiança

O casal Barkley não podia ter filhos e fez inseminação artificial. Tudo ia bem. Mas para sua surpresa, quando o bebê nasceu, descobriram um erro no laboratório. Harry, como vieram a chamá-lo, era um repolho. Muito saudável e natural. Harry teve uma infância muito triste, sempre rejeitado. Dormia numa cesta de frutas, na cozinha gelada. Seus colegas implicavam o tempo todo, não tinha amigos e nem namorada. "Repolho podre! Repolho podre!", repetiam os outros garotos.

Até que um dia a turma do colégio foi fazer uma grande excursão, de navio. Harry, que sempre quis conhecer o mar, foi junto. Porém tudo continuava igual para o triste Harry, sem amigos e nem namorada, e aguentando a zoação dos colegas. "Repolho podre! Repolho podre!". Mas sobreveio uma tempestade e o navio afundou. Harry e seus colegas ficaram muitos dias à deriva. E, com o desespero, veio a fome. Então, Harry falou:

- Comam aos poucos e pelas beiradas minhas folhas enquanto no meu miolo eu armazeno a água da chuva. 

Graças a este gesto, todos sobreviveram, inclusive Harry, que no entanto, teve de ser hospitalizado. Não importa, ele agora era famoso e reconhecido em todo o mundo. "Repolho herói", dizia o The Washington Post. "Novo mito americano é um repolho", dizia o New York Times. Tudo ia bem para o agora herói Harry. E mais, seu pai em prantos pediu desculpas e disse:

- Eu estava errado, não importa que você seja um repolho, o que conta é ser o melhor repolho do mundo.

Hoje, Harry é feliz. Cresceu e é arcebispo de Tucson, Arizona.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

So Long


Tínhamos montado uma oficina, nós três. Mas, uma manhã, Floyd caiu fora. E recebemos uma carta vinda de Stockton. Dizia que o pó e o cheiro de pneu queimado faziam falta. Queria se lançar de novo nas pistas. Como tinha levado nosso Dodge, nos cedia sua parte na oficina. Pior pra você, Floyd. So long. E logo chegou a vez de Paul. Os tiras me trouxeram sua carta: ele não estava legal e não sabia por que havia se jogado com meu carro contra o muro. Fuck! Também havia 50 dólares na carta. Devia dá-los a uma puta, para que pensasse nele a noite inteira. Dei meu macacão e as chaves da oficina para Lucke, meu jovem assistente paraplégico. Um presente, disse a ele. Ele ensaiou uma risada, mas quando compreendeu que não nos veríamos mais, me olhou como cachorro espancado. Senti seus olhos me seguindo. O rio se arrastava, asqueroso e amargo.

Eu a encontrei - a puta - no final da tarde, numa zona de meretrício. Com certeza agradaria a Paul, expliquei a ela. Não estranhou, nem se pertubou.
Entreguei a grana e quis cair fora. Ela me deteve e perguntou se eu tinha uma foto de Paul. Não tinha. Então, queria que eu falasse um pouco sobre ele. Senão não saberia em quem pensar. Ficamos horas sentados em seu quarto, e eu lhe falando de Paul. Creio que a feria com isso. Então, me disse: 

- No fundo, você é como Paul e ele não se oporia se o substituísse para trepar. 50 dólares só para pensar é um pouco demais.

Ela quase chorou enquanto se desnudava e subia em cima de mim. Bom Paul, acabou. So long. Quando acordei, de manhã, ela já tinha partido. Sem dúvida, todo mundo acaba partindo, não importa quando. Não importa para que lugar. Mas, porra, para onde queriam ir todos? Além do mais queria ter dito qualquer outra coisa. Mas o quê? Saí do quarto e segui umas folhas de jornal até a estação rodoviária. Certo de que encontraria um greyhound que me levaria. O rio se arrastava, asqueroso e amargo. Mas... porra! Para onde queriam ir todos?

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Abismo de Dora

Meu lar? Minha personalidade? Meus sentimentos? Não sei... Talvez perdidos nesse abismo que existe entre o barulho externo e meu próprio silêncio. Meu nome é Dora. Nasci com uma espécie de paralisia cerebral, segundo meu médico, o que faz com que eu não consiga produzir fala. Eu sei o que você está pensando. E não, eu não sou retardada. Quero deixar bem claro que Paralisia Cerebral é uma deficiência física, e não mental. Nós, PCs, entendemos tudo tão perfeitamente quanto ou até melhor que você, seu ignorante de merda!

Bom, mas vamos deixar isso de lado. Como disse antes, meu nome é Dora. Agora estou no metrô, indo pra minha casa. Uma senhora senta do meu lado e me pergunta as horas. Eu não respondo, apenas mostro meu relógio de pulso. Me pergunta mais duas vezes, impaciente. Continuo na minha. Ela me chama de garotinha nojenta, se levanta e vai sentar em outro lugar. Ainda bem. Odeio velha boca-suja! Boca suja e ignorante. E depois, não foi culpa minha, foi o abismo. Além de desenhar, minha maior distração é observar ao meu redor. E, inevitavelmente, sempre surgem estes seres desprezíveis pelos quais sinto uma profunda repulsão: os homens. Tem três deles sentados perto de mim. É óbvio que estão falando de mulher. Um dos babacas diz:

- É isso. Você deixa a patroa em casa, que é onde ela deve ficar. Depois, quando botarem a gente pra fora do bar, ainda vai dar tempo para uma rapidinha.

Daqui dá pra sentir o cheiro de conhaque barato em seus hálitos e sinto náuseas. Porcos machistas. Valerie Solanas e Lorena Bobbitt - minhas ídolas - é que estavam certas. Tem que castrar todos e criar uma sociedade de mulheres! Foda-se o papo da reprodução da raça humana. Eu odeio a raça humana! Mas, infelizmente, tenho que conviver com ela. Mas é claro que nem todos os humanos são esses seres desprezíveis. Apenas as mulheres se salvam. Isto é, algumas delas. Uma delas é Eva, a garota com quem racho o aluguel. Ela é linda, doce e muito inteligente. Eva é aspirante a escritora, mas é muito talentosa. Eu só me sinto segura nesse mundo horrível quando estou próxima dela. O melhor de tudo é que ela já estava acostumada ao meu silêncio e era paciente com isso. Ela me faz sentir segura. Só possui um defeito: diferente de mim, ela ama os homens. Parece até que namora um cada mês. Ninguém é perfeito. Assim que chego em casa, depois de mais uma série de arquétipos repetitivos, encontro Eva lendo no sofá.

- Oi, Dora, estava te esperando. - ela me diz, com aquele sorriso no rosto que eu tanto amo - Eu preciso de um favor de você.

"Tudo o que você quiser, meu amor", eu pensava. Minha alegria logo acabou, ao ouvir o "favor".

- É o seguinte: já sei que você não pensava em sair hoje à noite, mas preciso que você fique fora por umas horas. É que finalmente consegui marcar um encontro com aquele carinha de quem te falei. Daqui a pouco, ele virá para o jantar e depois, bom, você sabe... Quando você voltar, não faça barulho, estaremos no meu quarto.

Aquilo me deixou triste, arrasada. Não me restava nada a não ser sair para beber alguma coisa. Fui prum restaurante perto de casa e pedi uma garrafa de vinho. Tentei desenhar para tentar esquecer Eva e o mundo. Geralmente isso funcionava, mas hoje foi diferente. Peguei um cigarro do meu maço, mas não tinha isqueiro.

- Fogo para a artista. - falou um magrelo metido a playboy, estendendo com a mão seu isqueiro vagabundo - O que uma garota tão linda como você faz tão sozinha? Precisa de companhia? Como você se chama?

Céus, ele não parava de falar. E eu, é claro, apenas o ignorando, muda.

- Você não fala muito. Gosto disso. - ele continuava, colocando a mão peluda no meu ombro, achando que estava me conquistando - Deixe-me ver esse desenho.

Rasguei o papael e lancei-lhe um olhar de nojo e desprezo. Ele entendeu o recado e foi embora. Me enchi daquele lugar e voltei pra casa, um pouco tonta por causa do vinho. Abro a porta e lá está a cueca do paquera da Eva jogada no chão. Cuequinha do Snoopy. Que palhaço. Fui para meu quarto e me deitei na cama, na esperança de conseguir dormir um pouco. De repente, ouço um barulho. É Eva gritando.

- Muito bem! Se é isso que voce quer, pode ir embora! - Ela berrava para o rapaz, que logo em seguida bateu a porta e se foi.

Eva vem chorando para o meu quarto e me abraça, aos prantos.

- Aquele estúpido... São todos iguais...

Me sentia mal vendo meu amor chorar, mas, ao mesmo tempo, encontrei uma brecha para consolá-la e tentar chegar perto. Deve ter sido o vinho que me fez tentar beijá-la. Eva, é claro, se afastou.

- Pára, Dora... Estou bem... Não se preocupe...

Fui rejeitada mais uma vez. Ela me pediu para ficar sozinha e voltou para o quarto dela. Aquilo me deixou ainda mais chateada. Só restava dormir e esperar uma outra chance de me aproximar de Eva. Passa-se mais ou menos uma semana e chega o aniversário de Eva. Ela está escrevendo em seu escritório, como sempre. Me aproximo silenciosamente para não chamar antenção, tampo seus olhos para fazer-lhe uma surpresa e lhe entrego um cartão de aniversário. Fico feliz ao ver que ela gostou do presente.

- Oh, Dora... - ela diz, suspirando - Se lembrou do meu aniversário. Você é adorável.

Ela me dá um abraço forte e demorado e me faz a mulher mais feliz do mundo por alguns segundos. Escrevo uma mensagem para ela num papel, a convidando para comemorar jantando fora.

- Jantar fora? Sinto muito, Dora, mas combinei com um cara para sair hoje à noite. Vamos voltar tarde.

Percebo que fui rejeitada mais uma vez e fico aborrecida. Não demora muito para meus olhos se encherem de lágrimas. Eva percebe meu sofrimento, mas não o compreende.

- Vamos, vamos, por que faz essa cara? - Ela me pergunta, nem imaginando o que se passa na minha cabeça - Agora está chorando? Quando a gente alugou o apartamento, ficou bem claro que cada uma levaria sua vida... Por que está assim agora?

Não consigo parar de chorar e vou embora do escritório. Eva fica nervosa, e, insensível, exclama:

- Então tá, vá embora se é isso o que você quer. Às vezes penso que você não bate muito bem.

Minha vontade é de desaparecer, ir embora para qualquer outro planeta. Mas como isso não é possível, vou ao mesmo restaurante da semana passada, encher a cara. Fico por lá até de noite, bebendo, fumando e pensando em Eva, é claro. Mas não só pensamentos apaixonados. É uma sensação de raiva por ter sido ignorada duas vezes. Odiava em pensar que ela estava jantando com outra pessoa. Minha vontade era de cortar fora o pinto de todos os homens que davam em cima de Eva e ficar com ela só pra mim. Sentimentos misturados com àlcool não são uma boa combinação. Pelo menos pra mim. Me sinto mal e vou pra casa. Quando abro a porta, me deparo com uma cena que não devia. Eva e seu namoradinho no sofá, nus, trepando. Eles se assustam. Eva, visivelmente bêbada, se irrita.

- Que porra você está fazendo em casa tão cedo?! Não sabe bater antes de entrar, não, merda?

Ela se descontrola e me dirige um monte de ofensas, sendo segurada pelo rapaz que, em seguida, vai embora, assustado.

- Olha só o que você fez! Conseguiu que ele fosse embora, sua muda estúpida!

Eu tento, em vão, acalmá-la. Eva não era tão doce e paciente quanto eu pensava.

- Tire a mão de cima de mim! - Ela ordena - Sua sapata maldita!

Eva me dá um tapão no rosto. Fico irritada e, num impulso, a jogo no chão. Ela bate na ponta da nossa mesinha de centro e cai desacordada. Muito sangue começa a sair de sua cabeça. Fico desesperada ao constatar que ela está morta. 

Fora, ruge o mundo, enquanto dentro de mim, como nunca, reina o silêncio.

domingo, 24 de julho de 2011

Solidão

Divergindo das comparações comuns, nego que meu passado foi de solitude e afirmo que ele foi comberto solidão. Explidando-me melhor digo que a solitude é quando você opta por ficar sozinho, porém, a solidão não, ela se aplaca sobre você e aí tudo se torna violento, pois solidão é a falta de tudo aquilo que te alimenta, a falta do que é caro e necessário.

Mimpicapumpi


Goroangava perto da zoganda
mas não logidava porque joranda,
assitia tudo de molokuka
e sempre doriandava o que sariondasse.

Harsh Noise


improviso, falha, caos, máquinas, motores, anarquia, ínspido, incomoda, asperezas, texturas, somos areia, pertencemos ao deserto.

domingo, 3 de julho de 2011

Crônicas Negras

A história da minha família é simples. Meu tataravô ou algo assim cortejou a minha tataravó ou algo assim. Depois um português foi se confraternizar com meu antepassado. Momento histórico: ele presenteia meu tataravô com álcool e um colar. Em seguida, o português foi se "confraternizar" com minha tataravó da mesma maneira que meu antepassado fazia, se é que vocês me entendem... Ah, vocês entenderam. Depois disso, ocorreu outro momento histórico: os portugueses presenteiam meu tataravô com um segundo colar. Tá bom, na verdade, o nome certo é coleira. Enfim, o barco do português, junto a seus escravos, abandona as costas africanas, rumo ao novo mundo...

E foi assim que tudo começou. Mas, agora vamos voltar ao presente. Meu nome é Ada Smith. Fiz dezoito anos há pouco tempo. Fizeram uma festa com bolo, velas e tudo. Dizem que sou muito bonita. "Black is beatiful" e todas essas coisas. O reverendo Carlson vem me ver todas as semanas... Ou algo assim. Ele é jovem e muito lindo, e às vezes segura a minha mão. Mas não se declara. Infelizmente. Hoje me fizeram um monte de exames. A doutora Gabrielle perguntou muitas coisas sobre minha infância. Queria saber se eu era louca ou o quê. Fez perguntas tão esquisitas que, no final, eu disse que era ela a louca. Não achou graça. É uma chata de galochas. Mamãe também veio me ver. Chorava o tempo todo. Por que fiz isto ou aquilo, essas coisas. Papai nunca vem me ver. Melhor. Família é uma confusão. Simpático é o Sr. Wildar, o diretor. Deu-me papel, lápis e disse: "desenhe, escreva, faça alguma coisa para matar o tempo." Engraçado. Para matar o tempo. "Conte sua história, sua vida, a de sua família. Você é criativa, e isto vai te distrair." Gosto do Sr. Wilmar. Ele é tão simples. E seus olhos choram como os de um menino. Mas não sei se é pela emoção ou pela fumaça. Ele fuma como uma chaminé. Bom, foi assim que resolvi contar a histórias de minha família.

Vamos agora até a época de meu bisavô Cody Smith e seu irmão Albert. Eles eram escravos numa plantação em Virgínia. Meu bisavô teve um monte de filhos. Devia transar como um louco. Por incrível que pareça, ele foi um escravo feliz por toda a sua vida. Trabalhou e transou sem descanso. O filho mais novo é o meu avô, do qual falarei mais tarde. O irmão do meu bisavô, Albert, foi quem se deu mal. Envolveu-se com o filho do patrão. Para o filhote não teve problema, porque era quem era... Mas Albert levou uma boa surra e foi colocado na prisão, de onde o tiraram logo para ser apresentado ao KKK. Pobre Albert, era a ovelha negra da família. Bicha e corno. Ele teve direito a julgamento e tudo o mais. O queimaram vivo, acho que para servir de exemplo. E assim foi: o pobre Albert nunca mais fez aquilo.

1862. Meu avô, o filho mais novo de meu bisavô, lutou na Guerra Civil. Nessa época ele era um moleque. Cobriu-se de glória e de barro em Gettsboug ou Pettsbourg, ou algo assim. Diz-se que até mesmo Ulysses S. Grant apertou sua mão. Meu avô se casou com minha avó, com quem dizem que me pareço. Instalaram-se em Little Rock, Arkansas. Foram felizes e essas coisas. Logo tiveram meu pai, Samuel Smith. Mas ele mudou muito desde então. Papai era louco por jazz, as bandas de música, os cabarés, essas coisas. Sonhava em tocar trompete. Seu sonho se realizou quando se alistou e tocou clarim para seu regimento. Esteve na Guerra Mundial e visitou um montão de países na Europa. Adorou Paris e o Folies-Bergeres ou Folies-Mergeres, ou algo assim. Matou muitos alemães, foi condecorado e tudo o mais. Nos dias marcados, vestia o uniforme e todas as medalhas e caminhava mais duro que um pedaço de pau e com o queixo para cima. Eu ainda não tinha nascido.

Aliás, vou contar-lhes a minha história agora. O barraco onde eu nasci ficava em um pequeno povoado do Arkansas. Logo que eu vim ao mundo, minha mãe, Sarah, encheu-se de lágrimas. Mas o meu pai não gostou muito de mim. Talvez porque ele queria um filho e ainda não tinha se acostumado com a idéia. A idéia era eu. Aos cinco anos, comecei a frequentar a escola. Eu odiava meus colegas e meus professores, mas adorava desenhar no quadro negro. Aos dez anos, tive a primeira menstruação e a primeira de muitas crises de identidade. Dois moleques que moravam perto da minha casa viviam me chamando de "negra suja". E o pior é que eu era apaixonada por um deles. Aquilo me traumatizou. Papai havia me dito que eu era americana. Mamãe, que eu era judia. Tio Amos, que eu era massai. O reverendo Moses, que eu era uma criatura de Deus. Srta. Shelton, que eu era uma menina. Apenas o espelho me disse que eu era negra. Aos doze anos, teve o primeiro flerte. Era o vizinho. Chamava-se Niko, Nick ou algo assim. Quando aconteceu, não se via nada porque nós dois éramos pretos e estávamos no escuro. Aos 14 anos, a primeira chupada. Foi em um garoto chamado Lewis, Louis, Luis ou algo assim. No escuro, em um barraco. Ele demorou a gozar. Bom, vou deixar esses assuntos íntimos pra lá e falar um pouco da Sra. Logan, que sempre me queria bem. Sempre me lembro dela sorrindo. Era muito rica e muito boa. O que você pedisse, ela dava. Quando eu era pequena, me dava caramelos e coisas assim. Quando eu cresci um pouco, ela me dava dinheiro para o fliperama. Ainda não contei? O que eu mais gosto no mundo é jogar no fliperama. Passava horas e mais horas jogando no bar do Natan. Conhecia a máquina de cor. Podia jogar com os olhos fechados. Um dia levaram a máquina velha e trouxeram uma nova. Era uma máquina super legal. Mas, claro eu não tinha um tostão. E, como sempre, corri para a casa da boa Sra. Logan. Contei para ela sobre a máquina nova e pedi um pouco de dinheiro. Mas a senhora que sempre havia sido simpática e afável comigo, estava indiferente. Parecia outra pessoa. Disse-me que eu já era grandinha e que teria que aprender a ganhar a vida e estas coisas. E porque eu não a ajudava a podar a hera como prometia. Eu estava desesperada por dinheiro e só pensava naquela super máquina. Insisti mais um pouco com a Sra. Logan, mas ela insistia em me dar lições de moral, coisas que eu nunca suportei. Eu já estava começando a me irritar, então tirei a tesoura de jardinagem das mãos dela e então eu... E então eu... E então eu... E então eu... E então eu... Droga, pareço um disco riscado!

O promotor disse que eu dei vinte e quatro punhaladas ou algo assim. É possível. Não sei, não contei. Tudo o que sei é que eu peguei o que tinha com a Sra. Logan e fui correndo como uma louca para o bar do Natan. Foi lá que me pegaram. Nem me dei conta. Estava tão absorta com a máquina nova. Só pude jogar umas duas partidas ou algo assim. Que raiva, era uma máquina tão legal! Bem, agora estou neste reformatório. Mas não ele é tão ruim assim. Ao contrário do que acontecia nas ruas, eu sou bem tratada. O reverendo Carlson, aquele bonitão do qual lhes falei, veio me ver ontem. Rezamos juntos. Disse para eu repetir com ele: "Deus meu, tenha piedade de mim." E eu disse para mim mesma: "Deus meu, como está este homem. Treparia com gosto". Não disse nada para ele porque é muito sério e, no mínimo, se sentiria constrangido. De noite, me serviram uma cheia: champanhe, caviar, bolinhos de creme, biscoitos com nata e essas coisas de rico que eu nunca comi. Era de se lamber os dedos. O diretor Wilmar também veio e chorou mais do que nunca. E olha que não estava fumando. Parecia até saber o que eu tinha em mente. Tive que animá-lo, dava pena vê-lo assim. Bom, esta é a minha vida. A única coisa da qual eu me arrependo mais do que ter matado a boa Sra. Logan, era nunca ter visto a tal estátua do porto de Nova Iorque. Eu só a vi em fotografia. Dizem que é impressionante. Que simboliza a liberdade da América ou algo assim. E que é maciça e que está sempre rindo. Parece que mal sabe que amanhã tudo estará acabado. Mas por que ela ri? Por que, diabos, ela ri? Essa questão me faz ter pesadelos de noite. Sonho que ao invés de segurar uma tocha, ela me puxa pelos cabelos. Coisa estranha.

O reverendo virá uma última vez. Parece um trem, o cara. Pegará minha mão... Ai, só a mão! E nós rezaremos juntos: "Deus meu, tenha piedade de mim." Vou sentir muita falta de Carlson quando me suicidar amanhã com a faca que peguei da cozinha. Ah, as despedidas na última hora. Adeus a todos. Já vou, já vou. Perdão. Arrependo-me ou algo assim.

O Passarinho Chorão


O passarinho chorão admira o por-do-sol na ponta de um galho de uma enorme árvore e dá um suspiro. Isso já é o suficinte para ele se inspirar e filosofar:

- A maneira como os raios do Sol cintilam através da floresta imobilizam minha alma sensível. Meu corpo está congelado em um coma estético. Enraizado aqui, transfixado pelo belíssimo show da mãe natureza. A magnificência de Deus. Sou incapaz de me mover por causa da força e beleza dele... 

Ele suspira mais uma vez e exclama:

- Além disso, estou pregado a este galho.

O Pobre Guri


O probre guri, aos berros, entrava na casa, indo em direção à uma mulher na cozinha.

- Mãe! Mãe ! - disse o garoto todo encharcado de lágrimas - O Joe bateu em mim, mamãe!

- Quantas vezes eu tenho que dizer pra vocês, moleques, não brigarem - exclamou a mulher dando um tapa na cabeça do garoto.

O menino então abriu um berrero ainda maior que o anterior, foi em direção à um homem de aparência rústica que estava sentado no sofá e lhe disse:

- Pai! Pai! A mamãe me bateu!

- Então você deve ter feito alguma coisa errada! - disse o homem, também dando-lhe um tapa na cabeça.

O menino chora mais um pouco e em seguida sai correndo. Assim que ele se recompõe, presta bastante atenção na casa em que está. Olha para as várias seringas e garrafas de whisky na mesa e exclama:

- Cacete! Que droga. Esta nem é minha casa!

quarta-feira, 15 de junho de 2011

The End

Oi! Meu nome é Creepy. Calma, não se assustem com minha cara de maníaco que acabou de fugir do manicômio. Não julguem o livro pela capa. Aliás, podem me chamar de Tio Creepy. Bom, estou aqui para lhes apresentar uma história que se passa na noite de Halloween. Como todos sabem, todo dia 31 de outubro, as crianças dos Estados Unidos se fantasiam e vão de casa em casa pedindo guloseimas. A máscara típica é uma abóbora com boca e olhos, iluminada, por dentro, por uma vela... Bom, mas não serei eu a lhes relatar a história...

"Bom dia, Kansas, aqui é o Tom Thompson, da 'Rádio Kansas'. Receio que as notícias de hoje não nos façam começar o dia com muito otimismo... Para começar, direi que a família Clutter, de Garden City, foi encontrada morta esta noite por um grupo de crianças da vizinhança que foi até lá pedir doces. A primeira vítima que as crianças encontraram ao entrar na casa foi a senhora Clutter, conhecida na comunidade como uma mulher excepcional. Seus vizinhos a consideravam uma pessoa boa e afável. Participava de todas as atividades beneficentes da paróquia e até mesmo se encarregava pessoalmente de organizar muitas delas. A senhora Clutter foi encontrada pelas crianças na cozinha... Pendurada pelo pé esquerdo. E, segundo a perícia, em seu corpo havia sinais de espancamento e estupro. Bom, todos vocês devem estar se perguntando quem teria feito isso. Muita gente que conhecia a família, sem dúvida, já deve ter uma suspeita... Mas é melhor continuar relatando os fatos, porque a tragédia não acaba aqui... O segundo corpo encontrado foi o da senhorita Nancy, filha mais nova dos Clutter. Como sua mãe, Nancy também era muito querida no bairro. E as crianças a reconheceram imediatamente porque ela dava aulas na escola local. Melhor não dar detalhes sobre como foi encontrado o cadáver... O terceiro corpo encontrado foi o do senhor Clutter... Herbet Clutter era um homem sóbrio e respeitável. Sempre ocupava os primeiros lugares na paróquia metodista da comunidade. Era um ser de profundas convicções religiosas, e seu corpo foi terrivelmente multilado enquanto ele lia a Bíblia, como fazia todas as noites. O horrível desfecho que as inocentes crianças tiveram de presenciar foi oferecido pelo próprio assassino... Este estava assobiando uma canção na banheira - segundo o depoimento de um dos meninos -, com uma faca toda ensanguentada e com os pulsos cortados... Tratava-se do próprio primogênito dos Clutter: Dick! Sim, Richard Clutter, a grande promessa do futebol local. O jovem que saiu de casa para ser soldado para matar "matar e violar a lei de Deus", como sempre reprovou seu velho pai... Segundo uma das testemunhas, pouco antes dela e de seus amigos fugirem de medo do local, Dick havia lhe dito: "Bela partida, hein, garoto? Hê! Hê! Três a zero... Bom, agora serão quatro." Agora a noite se foi e o dia amanheceu como se quisesse esquecer... Mas será difícil, muito difícil, Garden City esquecer uma coisa dessas... Dick está foragido e, neste momento, a polícia vasculha a casa em busca de alguns detalhes, como por exemplo, a cabeça do senhor Clutter, que ainda não foi encontrada, apesar da busca minuciosa... Bem, é isso. Fiquem conosco para mais detalhes deste aterrorizante caso."

Oi! Sou eu novamente, o Tio Creepy... Que história, hein?! Aposto que se cagaram de medo. Hê, Hê... Esse Dick e sua mania de rechear abóboras de maneiras... Digamos, nefastas. Imagine, utilizar a cabeça do próprio pai como recheio! É até original, se me permitem dizer... Sabem, este conto me fez lembrar de um grande som da banda "The Doors", que todos devem conhecer e que combina perfeitamente com a situação....


"(...) O matador acordou antes do amanhecer, ele pôs suas botas
Ele tirou uma foto da antiga galeria
E andou pelo corredor
Entrou no quarto em que sua irmã vivia, e...então ele
Pagou a visita a seu irmão, e então
Ele andou pelo corredor, e
Ele veio até a porta... ele olhou para dentro.
- Pai?
- Sim filho?
- Eu quero te matar.
- Mãe... Eu quero...
(...) Este é o fim, belo amigo,
Este é o fim, meu único amigo, o fim.
O fim da gargalhada e das mentiras suaves.
O fim das noites que tentávamos morrer.
Este é o fim."

sábado, 11 de junho de 2011

Microconto: Uma Bela Histórinha Infantil Pós-Moderna

O Patinho faz "quém-quém" quando cheira uma farinha. Ele deve grana pro Gatinho Cabeção. A garota de Trancinhas tem pena do Patinho e ofereçe as jóias de sua avó para pagar a dívida. Mas a vó da menina, que na verdade era a chefe de uma gangue barra-pesada, descobre tudo e, numa briga, uma mata a outra. O Gatinho fica sem emprego, o Patinho sem farinha, nem namorada. Os dois se tornam amantes e, com a grana da vovó, vivem felizes para sempre.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Cristina ²

Estávamos fazendo amor. Mal sabíamos que meu pai havia chegado em casa e estava subindo. Mas, com nossos corpos nos tocando, era como se o mundo não existisse, que Márcio e eu fossêmos as únicas pessoas do mundo, assim como Adão e Eva. Infelizmente, a realidade era bem outra. E eu voltei ao planeta Terra assim que meu pai, como um animal, arrombou a porta.
- Era assim que eu queria ver vocês, filhos da puta! - berrou o maldito, invadindo o quarto - Vem cá, seu safado, eu vou te ensinar uma lição!
Meu pai deferiu um violento golpe de cassetete em Márcio, que tentou reagir, mas acabou no chão.
- Larga ele, seu porco, larga ele. – eu implorava, sem sucesso.
Meu pai continuava a espancar o meu amado, que tentava revidar. Mas o monstro pegou a arma... e o final foi inevitável. Era o fim de Márcio, o pai do meu filho e o primeiro homem que eu amei.
Passaram os meses e eu tive o meu filho. Dei-lhe o nome de Vinícius. Meu pai soube "tirar o corpo fora" e tudo ficou com legítima defesa. Além disso, o Márcio já tinha antecedentes. Ameaçou-me, se eu pensasse em denunciá-lo, mas isso era algo que eu não ia fazer. Eu sabia esperar. O tempo foi passando e Vinícius crescia com impaciência. Era impressionante a curiosidade do menino, toda noite, antes de dormir, me perguntava sobre o seu pai... E eu reproduzia para ele nossos momentos mais alegres, sempre com lágrimas no rosto. Outra coisa que me intrigou era o jeito que o garoto olhava a pistola do avô, a mesma que matou Márcio. Era como se ele procurasse derscobrir o passado da arma.
O pobrezinho ia crescendo sem ter um modelo masculino para se inspirar. Afinal de contas, o meu pai nunca teve instintos muito carinhosos para com o neto. Já era de se esperar. Quando o meu filho completou oito anos, não lembro por quê, o Marcio saiu na conversa. Eu e meu pai discutimos e ele me bateu. O garoto viu tudo e pegou a arma, que de algum jeito, acabou disparando e acertando o monstro. Eu nunca contei para Vinícius como o seu pai morrera... Mas pensava em fazê-lo. Mas não sei como nem por que, ele já devia saber faz tempo...

Microconto: Poysonville

Às vezes penso que esta cidade de nome Poysonville não é nada mais do que o sonho de uma mente pervesa e doentia. O delírio de um psicopata encarcerado em uma obsessão paranóica crônico-depressiva... Ou talvez alguém que, devido a um dissabor, bebeu demais a noite toda e caiu em um sono agitado e profundo. Alguém que, mais cedo ou mais tarde, vai acordar, não muito satisfeito...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A Voz da Noite

Quando ouço a voz da noite
Pressinto passos do dia seguinte
Não sou um mero ouvinte
Sou do destino autor, contribuinte

Às vezes a mais silenciosa das almas
Revela-me onde estão os traumas
As chaves das algemas
Que me prendem no mar de chamas

Quando a noite me ouve
Permito que descubra meus segredos
Conto das tristesas às alegrias
Traço caminhos para o dia seguinte

Às vezes ótima conversa
Revelo ao coração o velor deste momento
Esses em que eu e a noite
Decidimos as pautas das próximas madrugadas

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Se eu Morrer...

Se eu morrer antes de vocês
Me encaixotem de uma vez
Contem aos meus amigos a notícia maldita
E agitem uma festa com muita bebida
Ao lado do som, me deixem só
E subam o volume sem ter dó
Se acabem até o Sol raiar
Depois é hora de enterrar
O funeral vai devagar
Pra cerveja não entornar
Achem um lugar sem calçada
E me enterrem perto da estrada.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Encontro Com o Inesperado ²

 (...) Aos poucos eles foram chegando. Eu achei uma cópia das chaves da casa e abri a porta para um bom número de pessoas que, como eu, estavam ansiosas pelo encontro com o inesperado. Não demorou muito para aquela reunião virar uma festa de sucesso! Vinho magnífico rolando, sonzinho massa tocando, fumo do bom – que eu encontrei em uma gaveta da sala – passando de mão em mão... Todos dançavam ferozmente e o homenzinho estava realizado! No lado de fora da casa, Sophia me contava histórias incríveis sobre ela: de como nasceu em uma família intelectualizada, mas ao mesmo tempo, de baixa renda; de como seu nome era uma homenagem à atriz favorita de seu pai Sophia Loren; entre outras coisas... E enquanto ela falava, eu apenas ficava admirando seu lindo rosto e me controlava para não agarrá-la ali mesmo. Mas como havia bebido várias taças de vinho, não me aguentei. Tomei coragem e a "ataquei". Para minha surpresa, ela parecia estar esperando por aquilo e consentiu ao meu beijo. O que eu não esperava era ser empurrado para dentro da piscina que havia na nossa frente! Sophia, é claro, deu suas gargalhadas... 
Eu estava quase me sentindo humilhado, quando ela pulou em seguida na água. Nós nos beijamos mais e nos agarramos como enguias desenfreadas! A água estava quente e ficamos submersos por um bom tempo... Sim, caro leitor, é claro que terminamos fazendo amor ali mesmo na piscina... Foi simplesmente perfeito! Era sem dúvida uma daquelas noites mágicas da qual a gente não se esquece tão cedo... Mais eis que de um momento para o outro a situação se transformou numa verdadeira confusão. Comecei a ouvir gritos e descobri que algum filha-da-puta havia chamado a polícia! Está cada vez mais difícil de se divertir hoje em dia... A festa já era e muita gente foi presa... Quando mergulhei de novo, percebi que minha deusa havia sumido! Achei melhor dar um tempo ai embaixo até que as coisas se acalmassem... Mas uma pergunta não me saia da cabeça: onde estaria Sophia?! Aquela mulher irresistivelmente intrigante que mudou a minha vida em apenas uma noite havia desaparecido como num passe de mágica. E o mais estranho, deixando quase todas as suas roupas submersas na água. Os saltos, o vestido de época, o espartilho... Muito estranho...
Consegui sair da casa sem ser notado e fui para casa molhado, seminu e deixando um rastro de cloro por onde passava... Voltei algumas vezes para aquele bairro, mas nunca encontrei Sophia ou o homenzinho... Não importava... Eu estava novamente com o mundo em minhas mãos e ainda restavam muitos lugares a serem explorados.

Encontro Com o Inesperado

É difícil descrever a sensação de conhecer um lugar novo, onde tudo é diferente e inédito... E isso se torna ainda mais excitante quando você descobre que tem o mundo em suas mãos. Achei um nome – que para mim era novo – no mapa do metrô e decidi visitar os subterrâneos... De um aparelho de som saía uma música dançante e meu corpo não conseguiu ficar quieto... Mas logo o meu destino foi anunciado nos auto-falantes. Em breve eu seria um homem retirado de meu ambiente calmo, e ao mesmo tempo, agonizante... Eu viveria o novo e o desconhecido... 
Assim que sai da estação, conheci duas pessoas extraordinárias; um homenzinho tocava uma bela melodia em seu surrado violino ao lado de uma garota simplesmente deslumbrante, a mais linda que eu já vi. De algum modo eles não pareciam se encaixar em nosso tempo. Principalmente ela, que usava estranhas roupas do século XIX. O sujeito sorriu para mim e eu lhes contei como estava feliz por estar junto de pessoas tão simpáticas e em um lugar novo para mim. Os dois ficaram muito agradecidos, mas invejavam minha felicidade: não existia um pedacinho de terra onde eles já não tivessem pisado! Conheciam cada centímetro do mundo! Aqueles andarilhos fabulosos haviam me conquistado! Eu estava disposto a tudo para ajudá-los e então o homenzinho revelou com sua voz um tanto esquisita seu mais secreto sonho: “Eu gostaria de conhecer as casas das pessoas... Sim, é o que me resta descobrir... O interior das casas... He, He, He...” Escolhemos a casa que nos parecia ser a mais interessante e pulamos o portão de entrada. Não foi difícil passar pela janela. Caímos na cozinha e Sophia – este era seu nome – tratou de matar sua sede. Meu Deus, que mulher sensacional! Ela conseguia ser muito sensual bebendo uma caixinha de leite. E enquanto ela bebia e se deliciava, acabava derramando o líquido em sua boca carnuda, em seu lindo queixo e em seu pescoçinho perfeito, até ele cair em seu discreto decote e atravessar seus pequenos, porém lindos seios. 
A casa era realmente a mais interessante, tanto por dentro quanto, quanto por fora. Era fantástica, para dizer a verdade! Não faltavam quadros e esculturas de bom gosto e de todos os meus artistas preferidos: Manet, Monet, Picasso, Velázquez, Rodin... O vinho também não era de se jogar fora e os CDs eram sensacionais: de Rolling Stones a Chet Baker. Aquilo foi ficando divertido... Fiquei meio bêbado e tive a idéia de convidar pessoas estranhas pela lista telefônica. Lugares novos, pessoas novas... Seria perfeito

Continua...

terça-feira, 10 de maio de 2011

Pobre Roberto

Era uma vez um menino chamado Roberto. 
Ele devia ter uma vida feliz, mas as coisas não foram bem assim... 
Roberto apanhava em casa, na rua e na escola. 
Um dia, ele se revoltou e matou o pai a estiletadas. 
Agora, Roberto só apanha no reformatório.


FIM

Música do Pântano

Eu era o melhor... Uma voz dos céus, uma presença lasciva, selvagem... Quando eu gemia uma canção de amor, eram nuvens de calcinhas que voavam pro palco... Verdade! Tinha tudo que um cara do interior como eu pode querer da vida: limousine preta, mulheres gostosas e muitas, muitas drogas... 
À vontade... Uma casa nas alturas, um verdadeiro palácio; tinha até banheiros folheados a ouro... Verdade! Luís - a quem eu chamava de "Louie Louie", por causa da canção homônima - era meu melhor amigo. Um cara topa-tudo. Ele cuidava dos contatos, contratos, de publicidade e tudo mais. Eu cuidava principalmente de sua mulher, Ruth, uma potra selvagem. Trepei com ela até no meu banheiro folheado a ouro, numa festa... Verdade!! Louie não deve ter se ligado, e de qualquer maneira, éramos amigos. Amigos pra tudo. Logo que surgia um tempo livre entre duas turnês, íamos pescar no pantanal mato-grossense, de onde tinhamos nascido. Ah, de novo o cheiro do pantanal! Apenas eu e meu bom amigo. Grande Louie! Nunca entendi por que ele fez aquela brincadeira estúpida. Ele que sempre teve um humor sem fim... Imagina, me acertar várias vezes com o remo e me jogar do barco, bem naquela água lamacenta e fedorenta. E como se isso não bastasse, o sacana ainda roubou as minhas coisas e me abandonou no meio do pantanal... Mas que brincadeira imbecil!
Mas não me sinto acabado, isto não me afetou. Vou montar uma banda com músicos locais... Vamos ensaiar bastante. Um baixo pesadão, um backing vocal bem melodioso... Vai ser de arrepiar! E que se foda o Louie Louie! Estou viajando, sei disso. Mas vou voltar ao topo... E aí, se ouvirá nas rádios a verdadeira música do Pântano...

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Cidade da Servidão

Entre a Rua 81 e a Principal,
Jack estava imobilizado. 
Susan acorrentada como animal,
Lá na Broadway de baixo.
Frank estava amarrado,
Anna com coleira
E Patrick pendurado
Mas era todo em vão,
Aquele emaranhado,
Na Cidade da Servidão.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O Viajante

Nesta localidade da costa se encontram três bares e não há mais nada a fazer neste calor sufocante, a não ser comparar as qualidades intrínsecas de cada um destes estabelecimentos, respectivamente rosa, branco e azul. O primeiro é o mais próximo do mar, e, por esta razão, o viajante ali alugou um quarto. As duchas estão situadas em uma construção anexa. É prudente não se encontrar com o turista holandês nudista de nome Vincent. Este, tem o hábito de se banhar duas vezes ao dia, malgrado o frescor da água. Após o banho, ele ri muito alto, dando pancadas grandes em seu torso peludo. No terraço foram dispostas algumas cadeiras e o viajante achou que o lugar seria propício para a meditação. Mas seu espírito obscureceu-se ao longo das horas e das cervejas, sem jamais produzir a mínima reflexão coerente.
O bar branco domina o oceano. Ali, o viajante observou longamente a cadência e a amplitude das ondas. "A sétima é sempre a maior", registrou mentalmente. É preciso, para beber um pouco de álcool, esconder-se no interior de um local sombrio, onde os fregueses, por vezes, alinham à sua frente até dez canecas vazias de cerveja. Atmsofera esfumaçada, olhares insistentes.
A dona do "Miramar" - o terceiro bar - é uma viúva de pele morena e de seios generosos. Nos muros de sua sala estão pendurados os quadros de inspiração naif, pintados pelo falecido proprietário e marido. Esta mulher de físico excessivamente sensual e de carnes flácidas se mostrou compreensiva para com o viajante, numa tarde de melancolia.

Poesia Macabra

Tinha um homem que guardou seu sorriso,
Para um tempo futuro - talvez no Paraíso.
Esperando que sua dor cessasse,
Quando deste mundo Deus o libertasse.
Então um dia o homem morreu,
Seu cabelo sumiu, sua pele se dissolveu.
E finalmente sobre o ossudo queixo,
Sua caveira sorriu com desleixo.

Algumas das Coisas que Não Suporto

FANQUE CARIOCA, sertanojo, pagrude, axé, forró, carnaval, BBB (ou qualquer outro reality show imbecil!), penico na tv (ou qualquer um de seus fãs dementes!), beterraba, igrejas, nazistinhas, falsidade, modismo, chantagem emocional, vítimas, conformistas, crianças barulhentas, velhos grosseiros, pobre que escuta funk no celular sem fone de ouvido e em transporte público, rodeios, vaquejadas, hooliganismo, ecochatos, instituição heterossexual, pessoas vazias e superficiais, pessoas contra o aborto, parasitismo, senso comum, gays reproduzindo a lógica heterosexista, homofobia, bifobia, monossexismo, misoginia e lei anti-tabagismo!